Quarta-feira, 5 de Maio de 2010

E a Menção Honrosa de Uma Aventura ... Literária 2010 foi para:

Era uma longa noite de Verão, em que as árvores não se moviam, nem o vento se ouvia, e ali estava eu... Tão triste e tão só, sentada num banco de jardim, onde apenas se ouvia o som da noite.

 

Com o passar do tempo, as horas pareciam anos. Então, alguém se sentou ao meu lado, era velho, estava sujo, parecia um sem abrigo, alguém que precisava de falar. Mas eu sabia que não estava certo, pois um dia alguém me ensinara que não era bom falar com desconhecidos, mas, apesar disso, o meu coração dizia-me que havia algo que devia dizer, e assim foi.

 

Comecei por lhe perguntar se o sítio onde nos encontrávamos lhe dizia alguma coisa, ao qual me respondeu que todos os lugares por onde passara lhe eram especiais, era difícil escolher apenas um, porque todos eram diferentes mas especiais...

 

Fiquei confusa, não percebo o porquê dum banco de jardim ser especial, mas fiquei em silêncio e terminei por ali a conversa.

 

Alguns momentos depois, qual não foi o meu espanto quando o velho me perguntou o que fazia ali, que pergunta imbecil! No entanto, suspirei e respondi-lhe que procurava respostas, das pessoas e do mundo que me rodeiam, o porquê de tudo ser tão misterioso...

 

Assim, olhou-me nos olhos, tinha um ar doce e meigo, a sua voz suave permanecia na minha cabeça enquanto esperava uma resposta, foi aí que cuidadosamente me pegou nas mãos e me questionou:

 

- Que perguntas tem uma menina tão nova como tu, para numa noite de Verão permanecer aqui sozinha?

 

Aí, olhei-o com olhos de quem não gostou que me tratasse como uma miúda e respondi num tom irritado:

 

- E você? O que sabe sobre a vida? Um velho que nem tem onde viver, que nem sabe ler nem escrever, que sabe você?

 

Depressa me arrependi, mas não me pronunciei, mas, ansiei naquele momento que a minha boca fosse um túmulo, desejei que não me tivesse pronunciado daquela maneira, mas agora já não havia nada a fazer, era tarde...

 

Olhou-me tristemente e, num tom baixo, respondeu que sabia muito, que a vida não lhe passara ao lado como eu pensava e que aquilo que aprendera um dia lhe transformara uma vida de longos anos.

 

Rapidamente lhe pedi desculpa, mas o que estava dito, dito estava, apesar de que aquelas palavras me levaram a pensar que, por trás daquele mendigo, se encontrava uma grande história, um grande mistério. Foi aqui que começou a falar...

 

- "Sabes... a vida é assim feita de mistérios e curiosidades, quando a nossa vontade de descobrir o que há por trás de um grande mistério nos leva ao encontro de respostas, ficamos surpresos, por vezes, surgem-nos desilusões ou grandes surpresas...

 

É difícil saber o futuro, é difícil saber se do sonho podemos chegar à realidade ou se do pesadelo atingir o sonho...

 

É fácil sonhar, é fácil acreditar, és nova e tens muito por desvendar, muito para concretizar, tens uma vida pela frente.

 

Não basta querer, há que saber lutar, há que saber vencer e ultrapassar, porque pela tua vida encontrarás muitos obstáculos, uns que derrubarás, outros nem sempre... Mas, importante é que recuperes de todos os fracassos, que lutes pelos teus sonhos e encontres respostas, porque num banco de jardim ou em qualquer outro lugar, o teu coração saberá responder."

 

Terminou por aqui, foram palavras surpreendentes, mas não encontrei uma resposta que estivesse à sua altura, agora era eu quem se sentia ignorante, pois não encontrava palavras para lhe dizer o que me ia na alma.

 

Então, desejando um dia voltar a vê-lo, agradeci-lhe por todas as palavras, repetindo o meu pedido de desculpas.

 

Não me respondeu, apenas sorriu e voltou costas, caminhando pelo jardim fora.

 

Voltei para casa, desejei um dia desvendar o mistério que aquele velho transmitia e, acima de tudo, aprendi a não subestimar as pessoas e espero um dia saber tanto, ou viver metade do que aquele sem abrigo (sobre)viveu.

 

Adormeci com aquelas palavras, com aquele olhar e com aquela expressão meiga na memória.

 

Cristiana Gomes Filipe, nº 7, 11º F

 

publicado por essmo-becre às 17:34
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